sábado, 26 de fevereiro de 2011

Submundo da Bola

Toca a bola, Tabaco!


Sou um medíocre conformado. Não tenho o emprego dos sonhos. Minha mulher é uma desmiolada, evangélica recém-convertida. Minha filha única de dezessete anos já é descabaçada e está grávida do motorista do 678 – acho que essa merdalha deve ter deflorado minha filha no próprio ônibus, nos bancos de trás. Sorte ele não ser preto e nem torcedor do flamengo. Minha única alegria na vida é o futebol. O futebol real, não aquela invencionice que passa na TV. A agremiação pela qual eu jogo há doze anos, O Cascudo F.C. Ajudei a fundar esse time de bairro junto com os parceiros aqui da área. Nos inscrevemos nos campeonatos amadores locais e desde então, rodamos por muitos bairros do subúrbio, da zona oeste e visitamos comunidades. O “Casca” coleciona torneios, campeonatos e troféus de amistosos vários. Chegamos a ficar catorze meses invictos. Foi quando Peleca e Militão faziam a dupla de ataque, Mizinho e o maestro Tabaco inventavam no meio-campo, Marasmo, Lindomar, Hércules Carteiro e Boneco na zaga, o arqueiro paraguaio Buena se jogava pra cima das bolas, catava as difíceis e engolia galetos tremendos. Klinger e eu trancávamos o meio campo. Eu era a segunda estrela do time. Meu brilho é bastidor. Vigoroso, obstinado e disciplinado. Jogava todos os minutos e meu cuspe caía fininho no gramado, parecia sereno. Nunca fui habilidoso, nem rei da grande área, mas em matéria de catimba, procrastinação e capacidade de usar todos os detalhes a favor dos cascudos fizeram de mim capitão e ídolo. De cabeça rapada, barba crescida e monocelha eu aterrorizava os camisas 10 adversários. Batia assim na maciota, sem escandalizar. Tostões, pisadas, cotoveladas, xingamentos, dedadas, beliscões, cusparadas... Sempre usei de todos os recursos escusos para levar meu time à vitória. Nem coleciono expulsões. Sempre tratei o juiz com respeito e formalidade: “Que isso, seu juiz!” era o máximo da verbalização indignada. Depois danava a chorar no ouvido do árbitro, aquela lamúria catimbeira. Recordo uma vez que nosso time ganhava de um do River. Final do jogo, dominei uma bola no grande círculo e chegaram em mim. Mal o adversário encostou, me atirei ao solo. O juiz nada marcou, mas eu abracei a perseguida. Me chutaram, o juiz apitou e começou a porradaria. O time da casa deu no juiz, ganhei um amarelinho e o Cascudo ganhou o jogo. Outra ocasião a gente enfrentava o selecionado da Penha, uma galerinha carne-de-pescoço e tinha no ataque o afamado “Bizorrim”. “Bizorrim”: mineiro, baixote, atarracado, corajoso e muito íntimo da pelota. O sujeito não tinha posição fixa. Criava no meiúca e corria pra receber no ataque. Fiquei por conta de marcar o tal. Eu xinguei, belisquei, patolei. O cara impassível. Dominava a bola e partia pra cima de mim e dos outros, todo confiante; com a certeza de que se daria bem. Tomei uma meia-lua. Marasmo ganhou um chapéu por cima da cabeça grande. Um espetáculo vexatório. Foi quando eu me liguei num fator extra-campo. Sempre que o craque inimigo se aproximava da linha lateral, uma mulher, uma morena cheia de corpo, acenava, jogava beijo, e gritava “Vai, môzão!” Aquele era o calcanhar-de-         -aquiles do sujeitinho. Em vez de eu dizer pro cotoco de  pelé que a fêmea dele me abria o apetite, comecei a acenar e a jogar beijo para a moça. O cara se apercebeu do abuso e veio tomar satisfação. Fiz minha jogada: “Essa mulher é grande demais pro seu fusquinha, amigo! Olha o tamanho da minha língua, ó!”Botei meio palmo de língua pra fora e franzi o cenho, eu ia completar a ofensa com um “imagina o resto”, mas antes de eu guardar a língua dentro da boca, Bizorrim me acertou um botadão que quase arrancou meu paladar. Caí com a boca minando sangue. Empurra-empurra e o craque esquentadinho foi agarrado e levado pra fora do campo. Nunca mais jogamos na Penha. Fui jurado de morte. Com o passar dos anos, muitos deixaram o Casca. Alguns bem-sucederam e foram morar em bairros nobres. Outros pararam por conta de lesão. Alguns deixaram de ver sentido naquilo. Daquela geração de aço, só restaram eu e Tabaco. Hoje, Tabaco é banco. A maestria, a criatividade, a acuidade nos lançamentos longos tiveram um adversário inapelável: o excesso de peso. Tabaco, em redondas medidas, esbraveja fora do campo. Orientando a molecada. Mês passado, nos minutos derradeiros contra o Monarca do Méier, pênalti a nosso favor. Nem vi direito o lance, Pimpa tombou na área, o zagueiro e o goleiro dos caras danaram a reclamar. Cheguei junto de Pimpa que levava as mãos aos céus. “Fica caído aí.” Ganhando tempo, fiz sinal pro banco. Tabaco quis entrar só pra sentenciar a nossa vitória. A camisa 8 não escondia completamente as banhas. O juiz riu, o adversário fez piada. Tabaco, de boca aberta, de musculatura fria, colocou a esfera na cal. Eu comecei a reclamar de invasão de área no ouvido da autoridade. O juiz apitou. Vi o que o goleiro também viu. A corrida lenta em direção à bola. O toque com a esquerda bem embaixo. O guarda-metas desabando para o canto direito. E o coco girando e desenhando uma parábola invisível. Bem no meio do gol. O goleiro parecia uma tartaruga se debatendo inutilmente querendo virar de bruços enquanto assistia o fechamento do caixão. O veterano batendo palmas corria uma corridinha curta em direção ao campo amigo. A gente corria a passos largos pra abraçar Tabaco. Ele gritava: “À palenca, estilo Zidane, porra!”
Na terça me acharam num bar. Era o cabo eleitoral de um político de rabo preso com a milícia de Jacarepaguá. Disseram que era um jogo espetáculo para alavancar a campanha do dito cujo. Iam bancar a churrascada, me deram uma chuteira nova e deram a entender que o Casca tinha que fazer corpo-mole. Deixar o inimigo vencer. “Todo mundo vai sair ganhando”, dizia o assessor. Guardei aquelas palavras e ruminei a situação. Não seria a morte perder um joguinho amistoso. Além disso, eu já estou velho e meu romantismo está mais desbotado que minha camisa cinco “Todo mundo podia sair ganhando”... Mas agora Tabaco e o garoto Pimpa estão aqui. Vieram falar do tal jogo amistoso. Trouxeram a boa-nova que era pra ser uma surpresa pra mim. A partida contra a escória miliciana será a trecentésima vez que entro em campo pelo Cascudo F.C. Nem contabilizava isso. A galera da associação mandou confeccionar uma camisa especial com o número trezentos. Eles contaram também que vai ter uma bandeira com uma caricatura minha e com o dizer “Dinamarco, esse timéteu!”. Sacanagem dos putos. A gente começou a gargalhar. Eu ganho agora todo reconhecimento que me é negado pela família, pelo trabalho. Constato que meu amor por esse time é sólido, firme, permanente e impenetrável. Não tem chuteira, nem agrado que pague esses sorrisos, essa alegria coletiva que joga nossos problemas pessoais na várzea da amnésia. O time encardido do político mafioso vai ter de mim o que de melhor sei fazer. A catimba, a dissimulação, a sabotagem. Tudo isso bentratando a bola e de chuteira nova.

Contrato

Nossa relação não passa de um trato
Tu me arranhas
Tu te acanhas
E eu te bato.
Para que compromisso?
Se quando estamos distantes,
as lembranças são escassas
e o desejo se faz de omisso.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Festas Infantis

Uma pungente marca suburbana é a franca disposição para promover festejos infantis. As comemorações natalícias seguem anualmente até que menino se verta em rapazola e menina se torne ninfeta. Então eles dão um basta e ganham a soltura da rua. Fui convidado para o aniversário do filho de um antigo amigo. O quadro corriqueiro: Mais adultos que crianças, muita cerveja, frituras mil, músicas infantis que estupram nossos ouvidos e a molecada se divertindo no pula-pula e na piscina de bolas. Em meio ao agito a mãe gritava ao aniversariante: "Não corre, menino! Vai ficar todo sujo!" O moleque fantasiado de vasco já estava banhado de suor. O uniforme cruz-maltino apresentava manchas várias, fazendo lembrar o couro de um dálmata. 
Para aplacar a chateação, bebi muitos copos da cerveja snow, a cerveja que desce gelando. Suco de cevada da pior espécie esse. Nem gelado estava. Escumava feito baba de camelo quando derrubada no copo... No cume da onda etílica, comecei a ter terríveis visões: desceram um judas, um boneco gigante com a camisa rubro-negra com o nome "Zico" e o número 10. A molecada, incontrolável, partiu pra cima do galinho de pano na esperança de apanhar as guloseimas que serviam de estofo. As crianças, independente do time para qual torciam, divertiam-se deveras. Mas os adultos principiaram um desentendimento. Um sujeito gorducho, muito inflado pela soberba comum aos flamenguistas, começou a manifestar a megalomania. Ofendeu o brio do botafoguense mais próximo: "O melhor que o botinha conseguiu foi tomar o lugar de vice do vasco!" O saudoso dos tempos do Túlio Maravilha devolveu: "Molambo!". E feito crianças, os dois homens se atracaram, rolaram no chão para o desespero de suas esposas e demais convidados. Fui-me embora antes dos Parabéns. Esperar a partilha do bolo seria o mesmo que dividir a falta de bom-senso.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Peixe Frito

Vai, minha suburbana!
Me crava os dentes com vontade,
Faz da gordura o teu gloss
Que eu sou peixe frito:
Crocante por fora,
Tenro por dentro...
...repleto de espinhas.

A quem me indicar possa

Mumunhentos, mamateiros, useiros e vezeiros do recurso de prometer sem garantir. É assim que defino essa monta de instituições privadas que propõem processos seletivos meritocráticos para dar transparência às contratações. Tudo aparência; tudo ilusão. Um bom desempenho não tem validade se você não tiver um "padrinho" que abençoe teu currículo com a chancela do Q.I. E a referida sigla em nada tem a ver com inteligência...
Mas eu aprendi. Aprendi a ser político. Daqui pra frente vou azeitar minhas palavras e ações com a vaselina da hipocrisia, da adulação e da sedução rampeira. Darei razão ao seu discurso preconceituoso, compartilharei das suas sandices religiosas e darei ouvidos a todas as mentiras que me contar, desde que minha politicagem seja o adubo da  sua indicação.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Tira a máscara, Genevieve

Se para o carnaval queres ter o eu-histrião,
É bom que desças do pedestal e da arrogância abras mão.
Joga sobre mim o esguicho etílico de colombina louca
Na boca!
Na boca!
Ou te agarres aos teus petits chiens blasé.
E deixes que este folião
Desapareça na multidão.

Boleiro Ressentido

Quero um banho de sal grosso que me livre dos entraves
Porque meu talento não me livra do impedimento
Tampouco minha capacidade
Livra minhas bolas das traves.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Por onde andará Jaline Jah


 O bar e restaurante Mourinho lotava todas as noites de quarta. A clientela que se apertava nas mesinhas de quatro lugares e se punha de pé sobre a calçada não fazia seu hapy hour ali por causa do chope gelado, do Arak ou dos quitudes típicos que por lá eram servidos. Se apinhavam para assistir a uma curta apresentação de dança sobre o pequeno palco improvisado. Três artistas subiam no tablado em hora marcada e iniciavam o meneio oriental. Remexiam suas barrigas, braços e quadris promovendo um requebro mais sensual do que o sapateio das passistas, o remelexo mais afrodisíaco que o rebolado das funkeiras. Era a dança do ventre. As mulheres tremelicam os quadris na cadência da percussão, tecnicamente irrepreensíveis, diria algum entendido no assunto. Naquela apresentação quem com mais graça contorcia o ventre e alavancava as ancas era a mulher do rosto coberto, a mulher do véu, a mulher conhecida como Jaline Jah. A única membra permanente daquela equipe de dançarinas. O rosto não revelado e uma sensualidade singular faziam de Jaline a “odalisca” campeã em elogios, galanteios e agrados de toda ordem. Bilhetinhos, buquês, presentes e convites para jantar eram comuns. Jaline aceitava tudo com exceção dos contatos pessoais. Não trocava palavra com freguês algum. A postura reservada só lhe aumentava a aura de desejo e mistério. Tamanha procura e paparico fomentava a inveja e o despeito das coadjuvantes que futricavam, brigavam e confabulavam na tentativa de empurrar Jaline para o alçapão da demissão. Tudo inútil. O velho Adail não fazia qualquer menção a esse comportamento. O dono sabia que melindrar Jaline seria matar a águia dos ovos de ouro. Fazia de tudo para perpetuar aquela idolatria que a circundava. Afinal, o caixa das quartas-feiras ficava abarrotado. Uma quarta-feira chuvosa com Jaline era mais lucrativa que um final de semana inteiro com as dançarinas do segundo escalão.
Eu, frequentador antigo e assíduo do Mourinho, sempre me acomodo em uma mesa que fica na parte superior da casa, de frente para o palco. Fico de longe, mas ninguém me dá esbarrão, nem se mete da minha frente. A bebida só demora a chegar... Pouco importa. Fazia o chope render lançando sem parcimônia meus olhares glutões sobre a odalisca de ouro. Os seguranças de plantão, que nas noites de quarta se multiplicavam, faziam de tudo para manter distantes os admiradores mais inflamados. Vi muito marmanjo tomar catiripapo, testemunhei freguês se atracar por causa de Jaline Jah, flagrei mulheres carentes de atenção deixarem seus maridos pra trás motivadas pela ciumeira desmedida. E eu lá de cima sorvendo meu chope degelado, captando todos os detalhes e tecendo mil e uma suposições sobre aquele corpo, sobre aquele rosto coberto pelo véu.
Quem ficasse tocaiando a dançarina nunca via muita coisa. Saía pela portinhola dos fundos, com um sobretudo pelo corpo e com o véu cobrindo o rosto, tomava sempre o mesmo táxi que seguia o fluxo da Mem de Sá.
Foi com desgosto e vazio no bolso que Adail fixou o aviso de que Jaline seria substituída por uma linda dançarina. Choveram protestos e perguntas sobre o proprietário. Valendo-se da minha frequência histórica e do meu conhecimento com o homem, obtive uma resposta quando sugeri um aumento de salário. “Ela já ganha trezentos e cinqüenta fixo, mais dois por cento do féria do dia, mais oitenta por cento da cover. Ela não gosta da dinheiro!” A frequencia do recinto nas quartas-feiras decresceu absurdamente. As dançarinas substitutas se revezavam e nenhuma chegava aos seus pés , aqueles pés pequenos, cheios de contornos, cujos dedos médios eram adornados por um anel. Confesso que divaguei, delirei pensando em como seria segurá-los e acareciá-los de muitas maneiras. Passei incontáveis noites no Mourinho me alimentando de chope e lembranças. Nem o turco Adail, nem outras dançarinas sabiam o paradeiro da superlativa Jaline.

*
O ventre estava crescido, mas foi por lá que reconheci Jaline. Na sessão de laticínios a mulher escolhia um iogurte qualquer e exibia a barriga modificada pelos avançados meses de gravidez. Os mesmos olhos castanhos me fitaram quando gritei seu nome, olhos que agora dividiam os espaços do rosto com a boca de lábios estreitos e o nariz levemente aquilino. Jaline sorriu, deu-me as costas e partiu com os mesmos passos lépidos que usava para abandonar o palco. Neste momento abandonei o recanto da nostalgia e admiti que aquele ventre estava condenado, aprisionado pela criança que guardava.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Visita às primas

Para o  sofista de trem




Nossa a amizade datava da infância, mas o nós de nossos laços afetivos não se firmavam no tempo perdido. O que nos sustentava amigos era o fato de sermos vizinhos de bairro. Todos residiam em algum rincão de Madureza. Além disso, bebericávamos na fonte dos losers suburbanos. Éramos quatro. Éramos, enfim, solidários em nossa miséria; cúmplices em nosso velado ressentimento.
Xaxá era leão. Pilotava o 254. Paulo Banha era ambulante. Vendia e comia churrasquinho na saída da estação. Hércules era carteiro. Fazia a rota Madureza. A gente se encontrava nos fundos do shopping e seguia para o Sodoma`s . O trajeto, feito em silêncio, era amordaçado pelos queixumes da vida compartilhados. Afinal,  o ressentido tem essa mania de ficar remoendo os agravos ancestrais e o faz taciturno feito cão vira-balde que rói o osso desenterrado.
Era pisar o chão da casa de tolerância e se travestir de euforia. Paulo Banha gritava por uma garrafa de label, Hércules corria para o caça-níquel, não sem antes perguntar por sua "namoradinha". Xaxá sondava as novidades da casa. Soube de uma tal Tati Jaceruba. Morena fechada, cabelão que terminava no fim das costas. As ancas fartas e os glúteos salientes faziam a mulher parecer um centauro. Xaxá pousou a mão naquele corpo e subiu as escadinhas para cavalgar.
Não demorou muito, desceu um grosso vozerio. Meu amigo era arrastado por um dos seguranças. Em meio a confusão, tentei criar sentido no discurso desconexo de Xaxá. Ele se precipitou muito. Galudo como estava, ejaculou precocemente. Borrachudo como ficou, quis aproveitar os muitos minutos de seu tempo para conversar com a mulher. Jaceruba se negou. Disse que era paga pra outra coisa e não para trocar ideia; não era psicóloga. Xaxá gritou com a fêmea. Ela chamou o segurança. Na tentativa suicida de mitigar os prejuízos eu disse ao gerente que ia ao Procon. Ele disse tudo bem; desde que pagassem as contas e o programa inclusive. Tudo foi quitado.
Xaxá empacou num bar defronte à casa de tolerância. E lá ficamos até que as funcionárias da boate começaram a deixar o recinto. Jaceruba, mesmo sem os trajes de serviço, continuava cavaluda. Saía com outras duas colegas rumo a um ponto de táxi. Xaxá não se conteve: "Rata! Puta arrombada!". "Eu só recebo pra fazer o que sua mãe faz de graça, meu bem!". A gritaria ganhou efeito dominó. Os únicos que não zoaram com a cara de Xaxá fomos nós que o arrastamos em silêncio para longe dali.
Paulo Banha reclamou fome. Xaxá teve um acesso de choro: "Duzentas gramas de carne! Eu gastei cem reais por causa de duzentas gramas de carne!". Inconsolável. A montanha russa etílica estava na fase do declive galopante.Faltava pouco para chegarmos ao vale da acentuada depressão. Hércules, cada dia mais corcunda, reclamava dores nas costas. Banha estancou na frente de uma padaria que ainda mantinha as portas fechadas. Sentamos pelo chão mesmo e emudecemos, mais uma vez. 
Hércules se escorou em suas últimas forças e quebrou o gelo: "Mas e aí, Xaxá? Tua mãe faz mesmo aquilo tudo de graça?". 
"QUÊ?"
E Madureza amanheceu em grossa porradaria.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Pastor Sydnelson

Sabe aquele momento em que você se depara com um velho conhecido seu, quando há mútuo reconhecimento, mas ninguém ousa tomar a iniciativa do cumprimento? Pois é. Esse fingir não reconhecer só ocorre quando as partes se sentem constrangidas. Quando me deparei com o Pastor Sydnelson, fiquei por demais desconcertado porque acabara de sair do motel e caminhava a passos largos de mão dada com minha parceira para longe dali. O Pastor certamente ficou sem-graça por estar dirigindo um Corolla e por ter deparado comigo em situação relativamente degradante, deixando um motelzinho de quinta em dia promocional.
O primeiro carro de meu agora próspero conhecido foi um gol mil, desses quadradões que bem parecem uma caixinha de fósforo. Eu trabalhava em um cursinho preparatório na cidade de Nilo. Meu patrão era dono de um imóvel que o Pastor locava para promover  cultos. Muitas vezes ajudei a empurrar aquele calhambeque... O sacerdote era grato e bonachão. Não só me pagava uma cerveja como também entornava um copo da gelada. Parecia ingerir um remédio; tomava de uma talagada só.  Justificava a atitude pouco protestante com a passagem bíblica em que JC vertia água em vinho. 
Certa tarde, Pastor Sydnelson chegou pilotando um monza em muito boas condições. Não se vestia maltrapilho. Calça, sapatos e camisa social. Nem parecia aquele molambo que pisava em sandálias de borracha. Indaguei sobre o automóvel. Ele contou como conseguiu: 
"Cheguei atrasado no culto. O carro deu "probrema".. Com a mão lavada de graxa, todo suado eu falei assim: 'Irmãos, olha a mão do pastor! O carro do pastor é velho; faz ele se atrasar pros culto. O pastor precisa de um carro novo pra tocar a obra de Deus. Aleluia!' Foi um fervo. Trataram de formar um caixinha. Um fiel mecânico disse que passava o golzinho pra frente. Em uma semana peguei esse monza. É Deus agindo". Pelo visto Deus atuou mais e mais. Não parou quieto, não poupou esforço para dar a Sydnelson uma máquina importada.
Tempos depois tive mais notícias dele. Ampliou sua casa de oração e arrebanhou grande quantidade de fiéis. Largara a primeira mulher com quem era amancebado para  se casar com uma linda ovelhinha, muito mais jovem. Eu pensei no discurso que o Clérigo protestante poderia ter usado para trocar de companheira: "Irmãos não censurem minha atitude. Preciso trocar de mulher porque a minha já está um tanto gasta..."

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Divindade de mil e uma utilidades

Quando a existência é vazia por falta de recheio,
Apelamos para divindade.
É Deus na hora da morte.
É Jesus pela hora do recreio.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O homem que não engana


Para Lady Lidi.
Perdida nos Trópicos.
Profunda conhecedora do esporte bretão.

Pouco antes de adentrar a arena, Nivaldo sintonizava na rádio Tupi e por ali ouvia os comentários que ora lhe tiravam o sono, ora lhe enchiam de orgulho. A verdade é que achava o povinho da imprensa uma cambada de hienas sem culhão, sempre à espreita de um cadáver abandonado, de uma celebridade esportiva decaída. Mas com Nivaldo, eles mordiam a língua, tinham que dar o braço a torcer. Sua atuação nos jogos era de uma regularidade tão constante, que a cartolagem, que os graúdos começaram a tomar Nivaldo como inflexível. Foram afastando o homem dos grandes embates. Afinal tudo quanto era jogador afamado tinha bronca do extravagante juiz.
Olhava-se no espelho enquanto escovava a carapinha. As têmporas grisalhas lhe enchiam de orgulho, a pança avantajando era consequência de muitas ampolas que entornara ouvindo os sambas dos bambas na quadra da Portela. Time? Detestava todos. Até o Flamengo de seu falecido pai. “Eu sou Portela”, dizia Nivaldo. “Portela de Candeia, de Zé Kéti, de Monarco, de Paulo da Portela, Casquinha, de Ayrão, de João Nogueira e mais outros nomes que não viraram a casaca, que não ficam acendendo uma vela pro santo outra pro capeta feito esses boleiros vendidos.”
O auxiliares e o quarto árbitro chamaram pra fazer uma oração. “Minha oração já tá feita.”, disse Nivaldo beijando o patuá.
Entraram em campo sob a chuva de vaias e xingamentos. O pior é que o estádio estava às moscas. Além de ouvir com nitidez as ofensas, dava pra saber quem era o torcedor boca-suja da vez. Sorte o Madureira ser o time da casa; se o jogo fosse no Moça Bonita, o calorão tornaria tudo pior. Ê, Janeiro. Mal pisou no gramado, ouviu escancarado: “Preto safado!”. As orelhas em brasa. Via a cor de sua pele que tanto lhe orgulhava se travestir de ofensa. Já estava acostumado. Era preto, sim. Negão. Crioulo. O mais respeitado e veterano juiz da federação era crioulo. Apitou Libertadores, Copa América e Semi-Final de Mundial. Só não foi escalado pra Final porque a Copa foi na Itália e lá é apinhado de reaça facista. Iam ter que aturar o negão mais uma vez. Em fase crepuscular de sua carreira e por não ser afeito a futrico político, foi empurrado para os joguinhos menores. Mas os noventa minutos são iguais minutos pros grandes e pros pequenos. Ele corria do mesmo jeito. A imprensa despeitada – repleta de repórter parcialista – o chamava de fuscão preto, velho e fora de moda. Os jornalistas ficavam mordidos porque não lustrava o escudo dos grandes. Só a imprensa nanica fechava com Nivaldo... Marcava pênalti contra o Vasco, expulsava zagueiro do Flamengo, botava o técnico do Bota pra correr, deu safanão no meio-campista pó-de-arroz que lhe cuspiu na cara. Nivaldo Soledade Viana, o homem que não engana. Mais um jogo. Dessa vez entre miúdos cujos cartolas são maiores que o próprio time. O tricolor suburbano vivia uma fase de decadência capenga. Claudicando, tentava escapar do sumidouro que o levaria para o segundo escalão do estadual. O Bangu fazia mais que figuração, era um coadjuvante, suava pra ganhar dos pequenos e era atropelado pelo quarteto gigante. E eram essas as duas forças suburbanas que iniciariam o embate.
O calor judiava. Um bandeira que se dera bem. Aproveitava a nesga de sombra que começava a se formar pela esquerda do ataque banguense. E era por ali que o lateral subia a galope e atazanava a defesa do Madureira. Um cabeça-de-bagre tesourou o pobre. Cartão amarelo mostrou Nivaldo. “Preto filho duma!” “Juiz ladrão, porrada é a solução!” E dá-lhe Bangu. Sufocando. O Goleiro do tricolor não tinha nem folga pra encostar no poste.  Bola na área a todo momento. Chute de longe. Escanteio. O gol logo sairia... Eis que num desses contra-ataques safados, o meia-direita do madura lançou o atacante trombador, ganhou do zagueiro na truculência e, esperando a bola quicar uma vez, chutou com tudo. O goleiro não segurou. Saco! A bangusada chorou falta. Os gatos pingados do tricolor comemoraram muito. Nivaldo olhou na cara do auxiliar que baixou a cabeça. 1 a 0. Depois disso. Foi aquela covardia. O Bangu disparatando no ataque e o Madureira naquele encolhimento. Mais dois cartões amarelos pra cada.

Nivaldo, com altivez, caminhou pro vestiário. O técnico do time do oeste gritou “Ladrão”. “Ladrão é o teu patrão que não paga imposto!”, respondeu na lata. Ligou o rádio portátil. Durante a chuveirada fervente, ouvia os comentários. “Mas esse Nivaldo não enverga, Osmar! Viana não engana! Não Leva desaforo pra casa!” “E nem tem que levar, colega! Gol legal, legal, legal! Totonho trombou com o zagueiro e ganhou porque tem corpo de quem lida na estiva! Na minha opinião, quem falhou foi o goleiro!” Nivaldo amarrava as chuteiras. Nisso, chegou o quarto árbitro. “Nivaldo, alivia os visitantes... O homem lá tá invocado. Disse que você fica apelando só porque é nascido e criado aqui na área.” “Nunca aliviei nem o Flamengo do meu velho. Não tem assunto, não. Jogo se ganha na bola. Depois ele vê o VT e cai em si.”
“Tiziu!” “Frango de macumba!” “Filhote de uma cadela barriguda!” Nivaldo com a bola no colo seguiu emplumado. O joguinho teve seu início. Um reme-reme. Ataque dos de fora versus defesa dos da casa. Bola alçada na área do Madureira. O beque quase arrancou a camisa do atacante quando a bola seguia sua trajetória. Nivaldo Viana soprou forte e apontou para cal. A torcida tricolor matracou. “Ladrão!” “Tua mãe faz plantão na zona!” O capitão do Madureira veio com as mãozinhas nas costas, todo-todo: “Seu safado! Vai roubar na casa do caralho!” Nivaldo puxou o vermelhaço e esfregou na cara do abusado. Nova quizumba. Demorou bem uns cinco minutos pro sujeito sair de campo e todos ficarem a postos. Ainda teve que amarelar o goleiro que catimbava. Peleca, camisa oito do Bangu. Um quase veterano. Exímio cobrador de penais. Partiu pra bola com olhar fixo no meio do gol. O arqueiro se lançou antes para o canto direito. Arreganhou-se feito uma parturiente e testemunhou a bola voando baixo e lenta para o canto oposto. Chocou o poste e pererecou no chão. O zagueirão isolou pra onde o nariz apontava. 1 a 0. Ainda.
Com menos um, o time da casa mexeu. Sacou um atacante. E enfiou um terceiro zagueiro. Ferrolho suburbano. Nivaldo olhou pro relógio. 17:30. Trinta da segunda etapa. E um calor que não cessa. Ê, janeiro! O Bangu tentava, encurralva, Abafava. Chuta pro mato, que é campeonato, respondia o retrancado Madureira. As poucas bolas que iam em direção à meta o goleiro salvava. A contenda virou drama. Falta contra os da casa. O mesmo Peleca, sem esboçar abalo. Abraçou a pelota. Apalpou a esfera tal como fosse bunda de mulher. Beijou a querida. Nivaldo berrou pra barreira sossegar. Soprou. O camisa oito chapou. A redonda encobriu a barreira. De tanto efeito não caiu,  descaiu. O goleiro permaneceu plantado girando o pescoço a apreciando o agonizante espetáculo. A rede acomodou. 1 a 1.
A partir dos 35 o jogo ficou feio e repicado. Cheio de sebo. O time da casa maliciava  e a torcida se voltou contra. Pararam de xingar Viana e passaram a ofender a mãe dos atletas. O jogo ficou quente. Muita catimba, pancada de sobra. Nivaldo encheu as bochechas pra finalizar o jogo aos 51 da segunda etapa, com o desporte descambando pra grossa pancadaria. Nem esperou os PM`s virem ao seu encontro. Saiu em largas passadas para o vestiário. Os bandeiras se puseram em disparada. “Nivaldo, qual é o segredo pra tantas atuações impecáveis?” Não tenho segredo. Quem tem segredo é a  federação que, apesar do meu bom trabalho e do meu condicionamento físico, não permite que eu apite os clássicos!” “É isso, Osmar! Esse é Nivaldo Viana, o homem que não engana!”

Prestes a sair do estádio, foi interpelado pelo quarto árbitro. “O homem mandou agradecer. Convidou o senhor pra assistir de camarote o ensaio da Mocidade.” “Não protejo o Madureira, mas não abandono minha Portela. Diz que eu agradeço.” Nivaldo ainda suava tudo que correra em campo, um calor dos diabos. Ê Janeiro!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

SOUL SISTER


Sou ressentido assumido. Meu rancor salta dos meus olhos para os olhos de quem me vê. Ao contrário de muitos enrustidos que escamoteiam esse nefasto sentimento, eu o exibo como se fosse uma cicatriz de um acidente mortal ao qual sobrevivi. Uma enorme queloide que marca profundamente minha alma. Reconheço os hipócritas que tentam esconder suas dores e deméritos a todo tempo no biombo do perdão. Não adianta se banhar de perfume quando o corpo clama a emergência do banho. Eu primeiro senti a fragrância importada para depois cruzar com seu olhar.
Gorducha, com sobras de carne em todas as partes do corpo, curvava-se sobre o balcão pedindo fogo ao garçom. Eu me prontifiquei. Estiquei o braço e lhe fiz a gentileza. Ela agradeceu e em troca me ofereceu seu drinque. Vodka com Curaçau Blue, ela disse. Provei. A cor é ótima, eu disse. Rimos juntos.
De vestido vermelho berrante e muita maquiagem, minha ressentida da vez me lembrava uma pomba-gira quando ria  e uma viúva Porcina quando falava. Dançamos ao som do videokê que tocava o cancioneiro brega nacional. Eu lhe fazia as vontades. Enchia seu copo. Depois de muito beber, arrochei sua cintura roliça e colei minha boca na sua. Dali senti todo o amargor: filha única, fora criada com todo amor e com muito esmero, acreditou que era realmente uma princesa, mas aqueles que habitavam fora de seu castelo lhe apontavam a gordura e a ausência de curvas. Protagonizou a novela real “A gordinha rejeitada” e nunca mais abandonou sua personagem. O placebo para sua dor crônica era ludibriar os homens, prometendo-lhes sexo a troco de atenção, de cortejo e bajulação. Mas quando chegava a hora de cumprir sua parte do escambo, dava pinote e fazia o macho cair da certeza.
Terminado o beijo pude sentir o ranço viscoso de sua alminha pesada e ressentida.
Vamos pra algum lugar, eu disse. Estou nos dias, ela disse. Vamos só brincar, então... Fica mais um pouco que teu boquete é garantido. Assenti. Bebemos mais muitas. Saímos cambaleantes à procura de seu carro. Lá chegando, na solidão do estacionamento, cobrei minha paga. Tô passando mal, ela disse. Insisti. Abri a braguilha e ordenei. Tô passando mal, ela disse. Fechei a braguilha. Abri a porta do carro. Antes de sair soquei aquela cara gorda com força. Dei nela os murros endereçados a todas a fêmeas que me rejeitaram. Abri a bolsa. De sua carteira da Victor Hugo, afanei o dinheiro. Saí pelo estacionamento com sensação de bem-estar. Mais uma vez havia encontrado uma alma gêmea ressentida.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Jesus te ama mas não me peça nada emprestado

Minha vida aqui em Maria da Graça era uma calmaria, uma solitária bonança. Relativamente jovem e viúvo, recebo pontualmente a pensão deixada pela funcionária graduada do tribunal de contas. Não tivemos filhos. Minha mulher me deixou dinheiro, casa e solidão. A solidão eu divido com o nosso estimado melro Macalé, gogó de ouro. Os coroas da vizinhança viviam querendo comprar e barganhar o pássaro. Minhas negativas eram serenas e constantes. A história que vou narrar agora culmina com o fim da minha paz entoada pelo estridente canto de Macalé.
Sempre fui metódico como um animal. A morte de minha esposa tornou meus hábitos ainda mais constantes e previsíveis. Porque é mulher que tira a gente do prumo, que fica mudando a nossa rotina. Por isso não me caso de novo e nem boto fêmea dentro de casa. Todo mundo pensa que faço isso em memória da morta. Mentira. Não quero ter cobrança e aporrinhação. Pra me livrar da urgência da carne, recorro às casas de tolerância. Não tenho empregada. Eu mesmo faço minha comida, minhas compras. A passadeira e a faxineira aparecem uma vez na semana. Eu coloco a féria sobre a cômoda e as ignoro. Sou figura respeitada no bairro. E os colegas do bar se comprazem em beber comigo. Minha vida é assim, quer dizer, era. Eu escrevia o roteiro dos meus dias. Até que, um dia, eles chegaram.
Ocuparam a casa vizinha. Colada à minha. Um clã completinho: tinha até vó, até sogra. Sem contar o básico: papai, mamãe e uma parelha de filhos. Por eu ser o vizinho mais próximo, recorriam a mim para pedir emprestado todo tipo de coisa. Desde de martelo até uma xícara de açúcar. Apesar de ter meu sossego estremecido  pelos insistentes toques na campainha, eu era sempre solícito. Fizeram lá uma comilança de boas vindas que chamaram de culto de ação de graças. Eram crentes os desgraçados. O chefe da família era um pastor em ascensão. Tinha acabado de fundar O ministério Jesus é Rei. Fui intimado a beber refrigerante e a ouvir louvores vários. Saí de lá com uma azia desgraçada e uma baita dor de cabeça. Desde de então, passei a conviver com muitos “a paz do senhor”, “aleluia” e similares. Algo completamente tolerável se não fosse a insistência em tentarem me converter e me apresentar à Igreja. Todos os domingos, eu era acordado pela velhota de coque que batia palmas no portão, convocando para o culto. Diante das minhas negativas, a maldita exclamava “Não se pode negar um chamado de Deus!”. Eu, sem esboçar reação, agradecia e me esquivava. Mas a coisa persistia. Tive de responder os repetidos questionários sobre crença e religião. Respondia com falsa paciência e hipocrisia. Não tenho religião. Nem sei se acredito em deus. Não penso n`ele. A divindade só bate em minha porta quando morre parente ou conhecido. Pra mim a morte é o recado do deus que tento ignorar. Mas os vizinhos crentes e vivos queriam me arrebanhar cornetando profecias. Eu me fiz de mouco, até onde pude.
Durante a semana a família saía em diáspora para suas obrigações cotidianas. Mas a maldita velhota, permanecia em casa. E ouvia louvores no último volume. Aquilo perturbava meu juízo, roubava minha paz. Mas o que mais me doía era ver Macalé, o bom crioulo, sisudo e agitado. Passando de um poleiro a outro sem cantarolar. Mudei a gaiola de lugar, passei para os fundos da casa... A poluição sonora não fede nem cega, porém curra nossos ouvidos, arrebenta nossos tímpanos, arranca a dignidade do sossego. A sovaco sagrado inspirada pelos cânticos cafonas alimentava os pombos da área com miolo de pão. Os ratos alados enchiam o papo ao som de irmão lázaro e vinham cagar em minha varanda. Fiz pedidos e reclamações. Em troca recebi “santinhos” e promessas de oração.
Foi então que numa terça de carnaval, depois que a sessão jesus song chegara ao fim, fui até os fundos da casa para levar Macalé até a praça. Macalé estava caído, com as pernas duras e estiradas. O pretinho estava morto. Abri a gaiola e me pendurei no fio de esperança. Tive a certeza da tragédia. O bichinho não suportou mais um dia de tortura sonora e se afogou no em seu bebedouro. Preferiu a morte a ter seu canto abafado pelas músicas de gosto duvidoso.  Aquilo me deprimiu muito. Enterrei a única lembrança viva de minha esposa no quintal. Tive lágrimas nos olhos.
Acabado o carnaval e meu luto, decidi dar o troco. Fui para a região fronteiriça das propriedades e comecei a dar de comer aos pombos que também eram alimentados pela coroa de boa fé. Só que em vez de restos de pão, eu oferecia aos penosos uma singular iguaria: milho de pipoca borrifado com generosas doses de formicida. Os bichos se regalavam para o ciúme da velha. Só que, depois de engolir os grãos inaugurais, começavam a cambalear e a ensaiar voos débeis para logo ficarem se estrebuchando no solo, trilhando pra morte. A velha me chamou de demônio muitas vezes. A partir de então as perturbações evangélicas cessaram. Enfeitei meu sóbrio muro com enormes figuras de Zé Pilintra e Pomba-Gira. Me declarei inimigo. Dei a eles o que sempre quiseram porque, não tendo a certeza de suas verdades, precisam sempre de alguém que compartilhe desses devaneios ou de alguém que se oponha a sua fé. Deparando-se com outras crenças, confrontando os adoradores das entidades ditas por eles diabólicas, julgam-se mais diferentes dos homens, portanto, mais próximos de deus. Continuo sem ter religião. Não sou santo tampouco aceito que façam de mim um pobre diabo.

How how rancor

A mediocridade e autopiedade são mais pesadas quando estamos na presença de parentes melhor sucedidos. Diante deles, podemos mensurar nosso fracasso e ruminar secretamente o rancor. E não há reunião familiar mais propícia para colocar as dores na balança do que o aniversário natalício do Jota Cê. As pessoas, além de serem tomadas pela histeria consumista, ficam mais condoídas. Essa compaixão pontual é fajuta e fugaz, só serve mesmo de mote para a lavagem da encardida roupa familiar, daquelas vestimentas salpicadas de manchas e nódoas mal disfarçadas pelas cores da hipocrisia.
Detestava natal. Além de ter que gastar o Décimo terceiro suado com presentes para os dois filhos, tinha de aturar a mulher gerenciando sua grana e lembrando-o diariamente que a reunião na casa de Dinho – seu primo em segundo grau, mas irmão de criação – se aproximava. A esposa parecia se comprazer em comparar a vida abastada do bem-sucedido médico Doutor Alfredo com a existência de aperto que o marido mecânico e instrutor de autoescola. Delair olhava para o rosto contraído refletido no espelho enquanto escanhoava a bochecha quando seu celular tocou.
“Atende, mulher! Atende que deve ser minha amante! Ah ah”
“Amante?! Se tu arrumar uma amante, eu vendo pra ela meu lugar de esposa por cem reais! Atende logo isso aqui que é teu primo.”
Aborrecido com o desapego da mulher, Delair atendeu o celular tirando os resquícios de espuma que sobraram pelo rosto.
“Alô.”
“Fala, Dinho.”
“Como vai, primo?”
“Bem... E você?”
“Estou aguardando vocês aqui em casa hoje para a ceia. Vocês vêm, né?”
“Claro. Carmen não perderia isso por nada e as crianças também gostam...”
“Pois é, rapaz... Família reunida... Mas que queria te pedir um favor de irmão...”
“O que é?”
“Bem, o Papai Noel que eu contratei para chegar aqui meia-noite caiu doente de dengue e eu pensei em você para substituir. Quatrocentos reais, que tal?”
“Tá me chamando de gordo ou de passa-fome?”
“Deixa disso, mano! Você e alto e barrigudo é verdade, mas eu confio muito em você. É melhor dar quatrocentas pratas na tua mão do que na mão de estranhos.”

Olhou-se no espelho. A grana viria a calhar. Chegaria na festa já na hora da comilança, não teria que aturar os papos sobre ganhos salariais, carros importados e viagens à europa.

“Tá. Mas como é que faço pra pegar a roupa?”
“Estou aqui na porta da sua vila com tudo. Com o dinheiro inclusive.”

Delair consentiu. E pensou o quanto cretino era seu primo. Ela sabia dos dilemas financeiros. Fez uma proposta irrecusável para os padrões de um profissional liberal semi-empregado. Vestiu a bermuda, calçou as havainas e respondeu ao interrogatório da mulher que frigia rabanadas com um tapa safado na bunda.

“Homem doido!”

De frente para o portão, Dinho esperava com duas sacolas grandes de papelão sobre o capô do carro zero quilômetro. Apertaram-se as mãos. Delair recebeu dois tapinhas no ombro e oito notas de cinqüenta reais. Ouviu uma dúzia de recomendações, ouviu também que os presentes das crianças estavam lá, a postos, sob a árvore de natal. Ao voltar pra casa, ouviu novo interrogatório da mulher. Em cochicho, Delair explicou a situação. De cenho franzido, a esposa começaria a vociferar quando foi surpreendida pelas duas onças estampadas nas notas.
“Tome um táxi com as crianças. Guarde o troco para comprar algo legal pra você. Alguma coisa que não te lembre a cozinha e nem o mau marido que sou.”

A mulher sorriu. Dependurou-se no pescoço de Delair, guardou o dinheiro entre os seios e correu para o fogão para salvar a última leva de rabanadas de serem queimadas. Queria manter a tradição de produzir as “melhores rabanadas da família”, conforme diziam as dondocas da zona sul.

Assim que viu a família tomar o táxi, Delair se travestiu de papai noel. Só em vestir a calça e botar os sapatos, suou todas as brahmas que viria a tomar. Ruminou as lembranças antigas da época dos extintos hi-fi, quando seus “irmãos” iam calçados com os estilosos pisantes all star enquanto ele se apertava nos sapatinhos de crisma que Dinho havia usado um ano antes. Olhou-se no espelho. Estufou ainda mais a barriga e gritou Rou rou rou. Passou longe do gargalhar do bom velhinho, mais pareceu o som gutural de alguém que pragueja. Saiu da vila em direção ao seu Voyage. Teve de parar para atender às crianças da vizinhança e tirar fotos.

Chegou cedo, estacionou o carro de frente para o prédio sede do festejo natalino. Destapou o isopor sobre o banco do carona e abriu a primeira das doze latinhas. Enquanto consumia da cerveja em sôfregas goladas, observava as pessoas que chegavam ao prédio e ia reconhecendo os parentes e pensando em sua atuação diante da família reunida. O álcool ajudava a avivar o passado e abria os portais do ressentimento, sentimento que lhe era muito caro, o seu único patrimônio. Pegou o celular e ligou para o parente anfitrião. Este lhe disse que já podia subir. Antes de desligar, Papai Noel arrotou sonoramente para que o outro ouvisse. Mirava-se no espelho do elevador, ajeitava a barba, cuidava em estufar a barriga para se fazer convincente diante dos olhares curiosos dos menores.

Rompeu a sala com em alarido uníssono. As crianças se corriam para tocá-lo, as mulheres incentivavam os pequenos. Os homens cuidavam em repetir as velhas piadas e em desmoralizar o velho Noel. Eis que Papai Noel clama por atenção.
“Feliz Natal! Tomem aqui os presentes!”
Começou a atirar toda a sorte de roupas e cacarecos velhos que guardava dentro do saco.
“Isso tudo são artigos de segunda mão com que meu querido primo Alfredo, Alfredíssimo, presenteou a mim e a minha família no último ano. Para retribuir tamanha caridade, estou devolvendo tudo na frente de todos. Quero ainda agradecer a meu querido irmão de criação pela festa que promove; festa esta a custa dos muitos anjinhos que mandara ao céu. Festa à custa de muitos abortos.”
Atônitos os convivas se entreolhavam sem bem saber o que fazer. Algumas mulheres se julgando sensatas tiraram as crianças da sala. A esposa do Papai Noel parada estava e parada ficou. Conhecia bem o marido. Qualquer tentativa de dissuadí-lo seria retribuída com violência. Dois varões se prontificaram em segurar Delair, que imediatamente puxou um 38.
“Deixa eu falar nesta porra de festa! Este Alfredíssimo que está bancando o rega-bofe não vale a merda que caga. É um carniceiro. Quando ele diz que me tem como irmão é justo porque não sou seu irmão. Sou apenas o filho da serva que limpou sua bunda sem receber salário por isso. Sou apenas filho da mulher que trabalhou para esta família anos a fio sem receber qualquer benefício. Depois que minha mãe morreu, a falecida Dona Odete decidiu me criar para remir seus pecados. E me criou como um ente menor, como uma criança de segunda. O Alfredo pai, que o diabo o tenha, muitas vezes me xingou de filho da puta, muitas vezes me humilhou por conta da minha origem. Eu não sou irmão de ninguém nesta merda de família, nunca fui! O laço que une esse povo a mim é a culpa. E só!”
O mal-estar havia se espalhado pela casa. Delair arrancou o capuz e a barba e jogou arma de brinquedo no chão. Alfredo pensou em dar uns bofetes no irmão postiço, mas desistiu quando lembrou que não eram mais crianças e que o braço tatuado de Delair era duas vezes o seu. Limitou-se a vociferar
“Filho da Puta!”
Delair, sem se voltar, respondeu:
“Suas palavras são bala de festim. Daqui pra frente todos meus natais serão menos infelizes. A máscara do teu caráter caiu. O canalha é você. Feliz Natal.”

Antes de partir em retirada atrás do marido Noel, a esposa passou a mão na bandeja das rabanadas que ainda não tinha sido tocada.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Cabo Guilair:todo covarde se esconde atrás da autoridade (para o rei da blitz)

O mau-caratismo não brota de hora pra outra feito tiririca em horta abandonada. O caráter carunchado tem certidão de nascimento e história pra contar. Guilair brotou da babaca de uma mãe solteira que abrira as penas pra um camumbembe que conheceu na feira de São Cristovão. Passado o folguedo, o paraíba sumiu no mundo. A mulher jamais revelou o nome de seu sócio naquela falida empresa humana. Com cinco anos existência, Guilair foi deixado na casa de uns parentes. A mãe desapareceu. Dinha Socorro pegou o menino pra criar. Criou o menino feito um bicho, feito um porco estimado. Acorrentado ao pé da mesa da cozinha. O moleque Guigui era intimado a lavar a louça. O grude de fubá ficava numa tigela embaixo da mesa. A madrinha dizia que aquilo era pro bem dele; pra não ficar na vagabundagem da rua enquanto ela estava na lida. O cãozinho xodó também comia do angu; da mesma tigela de Guigui. Muito educado, xodó deixava o menino se servir primeiro. Com o tempo, o estimado cachorro passou a ser o primeiro comensal. Taludinho, Gui começou a fazer pequenas tarefas pela vizinhança. Podava os gramados, lavava os carros, Carregavas as sacolas para as donas-de-casa. Escondia uns caraminguás pra si e entregava o grosso da féria para a madrinha somítica. Na semana que completou 16 anos, o seu melhor amigo já cego, manco e de faro ruim bateu as patas. Dinha mandou enrolar o defunto em sacos plásticos e atirá-lo na caçamba do lixo. O moleque disse que não.Melhor era enterrar no quintal e por uma cruz de madeira, uma cruz em que as ripas lembrassem um osso. Malucou, moleque! Parece um retardado! Mania de achar que bicho é gente. O meu quintal não é cemitério de cachorro! Bicho não é gente?! Xodó era melhor pessoa que tu, sua bruxa! Ingrato! Dinha tentou acertá-lo com a vassoura. Guilair se esquivou, adentrou a cozinha. Agarrou-se ao pote das economias e fugiu de casa com a roupa do corpo. Ficou uns tempos vagando pelos quintais e condomínios em que prestava serviço. Até que uma dona que era enfermeira e tinha fissura por gatos – seu apartamento de dois quartos abrigava 14 felinos – decidiu acolher o garoto. Aquela gataria; a tempestade de cotões de pêlos, a inhaca de merda, aqueles miados... Fora a quase obrigatoriedade de ter que copular com a dona que não tinha zelo com a casa e não tinha asseio com o corpo que tornavam a vida do rapaz um calvário. Acordava cedo para fazer os biscates. À noite tomava banho no posto de gasolina e ia para o supletivo. Postergava o máximo para retornar pra casa. A dona dos gatos sofria com a toxoplasmose muito avançada. Dores de cabeça terríveis, lacunas de memória... meningoencefalite, disse o médico. A moribunda pediu que Gulair olhasse pelos gatos. Eram seus únicos herdeiros. Guilair chegou na casa. Encheu o tanque com água. Pegou um bichano de cada vez e pôs na gaiola de passeio. Afundou primeiro Alain Delon (todos tinham nomes de artistas do cinema). Só trazia a jaula para a superfície bem depois que o bicho parava de se debater. Enrolava a carcaça num saco preto de lixo e partia para outro. E fez assim 13 vezes. Com Marcelo Mastroianni, fez diferente. Agarrou o gato pelo cangote e o arremessou com a força que tinha pela janela do quarto andar. Gastando seis vidas, o gato foi de encontro a murada do prédio em frente e usou das garras para fazer a queda mais suave. Caiu de pé sobre a caçamba de lixo e desapareceu na escuridão. Guilair ficou arrependido de não tê-lo afogado como os outros.
*
Cabo Guilair Souza. Cabo Souza. Exemplo de disciplina e companheirismo dentro da corporação. Durante o curso de formação, passara muitos e péssimos bocados. Recebia missões inglórias como engraxar todos os coturnos chulerentos de seus superiores. Esgravatou o solado de muitas botinas, retirando todo tipo de imundície. Quando lhe designaram a incumbência de faxinar os canis, Guilair sorriu por dentro. Amava os cães. Tinha por aqueles animais uma afeição que jamais sentira por pessoa alguma. Os canis que fediam a excremento não importunavam as narinas do destemido soldado, pois seu olfato tinha sido calejado pela fedentina que exalava dos bichanos de nomes importantes. Os superiores passaram a admirar o zelo, a competência, a obstinação e o silêncio de Guilair. Pela primeira vez, ele reconheceu respeito. Fizera de seu batalhão um simulacro de família. Os uniformes, os jargões, as piadas, os reclames e os interesses transformaram a Polícia Militar no convívio social de Guilair. Nos dias de folga, trancava-se em casa com seus filmes de Charles Bronson e com romances policiais lidos e relidos. Quando sua folga coincidia com o sábado, raptava um gato vira-balde e o levava para o canil da PM. Soltava dois pastores e tirava o bichinho da sacola. Num aperreio tremendo, o gato escalava a árvore mais próxima fugindo de seus algozes. Cabo Guilair munia-se de pedras e cacos de telha. O felino sofria com os projéteis até despencar. Os cães então destroçavam a presa sob os olhos satisfeitos do policial.
Durantes as operações, blindado com a carapaça da autoridade, acompanhado de seu irmão de farda, via os civis como seus inimigos, frágeis inimigos. Mandava encostar, escaneava a alma do tipo até que ele desviasse o olhar. Se estivesse no erro: documento do carro atrasado, falta de documentação, perninha de grilo, cheiro de cachaça, cara de favelado e até o medo, o homem da lei atuava com muito rigor. O cabo Guilair não se interessava em cumprir a Lei. A sua única obediência era devida à sua vontade, o “tirar vantagem”. Se não tivesse caraminguá pra perder, tinha de perder alguma coisa, a alma, a dignidade. Decifrava a o cidadão pra não meter a mão em vespeiro. Quando sacava que o sujeito era um bunda rachada, pronto. Começava a moer o espírito do coitado. Gritos, ameaças, tapa na cara, cusparada. Já mandou a mina de um molecote abusado tirar a calcinha pra verificar se não tinha droga malocada. Bateu em travestis, quebrou os destes de um traveco que levantou a voz. Travesti não era gente. Um professor teve a infelicidade de topar com Cabo Guilair no alto da madruga. Errado nos documentos e sem ter nada de valor para perder, o policial e seu comparsa da vez fizeram o mestre tirar três pneus carecas do carro só pelo prazer de castigá-lo por não estar quite com a lei de trânsito e por não ter vintém para molhar a mão de ninguém.
*
Cavalo tá sempre de pé, mas também dorme. Guilair se sentia policial em tempo integral, mas era obrigado a andar desfardado, a rodar em seu carro de passeio guinchado num B.O, a passear sem a companhia de um superior ou de um comparsa. No que a gente não vê é que mora o perigo. Estava no Bar 25 horas a mando de um miliciano graúdo para recolher a parte que lhe cabia do latrofúndio, queria sua fatia da mumunha. Ouviu uma freada brusca e viu Uno que se chocava na traseira de seu automóvel. Virou o chope e foi pra fora para as satisfações. Saiu da Fiat um sujeito negro, alto, magro e com as costas largas que tinha o feitio duma pipa. Circundou os veículos para ter noção do seu prejuízo, No vidro de trás da Uno, tinha um adesivo: NEGRO GATO – CAPOEIRA E DANÇA .
“É. Tu me fodeu as lanternas e amassou meu pára-choque. Tem seguro?” Disse encarando o sujeito que não lhe desviou olhar, não se deixou ser escaneado, não revelou pedaço da alma. “Isso não teria acontecido se o seu carro não estivesse estacionado a dois metros e meio da esquina. Não tenho seguro. Cada qual que segure a sua pemba.” “Como!? Cara, tu bateu na minha traseira! Tu sabe com quem tá falando?” “Não sei... Sei que meu nome é Reinaldo, sou instrutor de dança de salão e mestre de capoeira. Tenho academia própria.” Guilair olhou ao redor. Espectadores na porta do bar. Alguns passantes brecavam para entender o ocorrido. “Tu pode ser mestre da puta que o pariu, mas no prejuízo não vou ficar! Pode desembolsando... Guilair se lembrou que estava sem farda, que era dia, que não estava de serviço e que não havia comparsa a tira-colo. “Amigo, tenho pressa. Sou trabalhador. Segura o teu prejuízo que eu corro atrás do meu.” O sujeito deu as costas. Guilair não podia atirar na perna do crioulo na frente de tantos. Decidiu agarrá-lo pelo braço. Mestre Rei não pipocou, girou e aplicou um escorão na coxa do adversário. Guilair caiu de lado e já recebeu uma cotovelada no rosto. Ia levar a mão às costas pra puxar o berro quando tomou um martelo cruzado. Sentiu o peito do pé do inimigo queimar seus cornos. Ainda zonzo, foi ajudado pelos conhecidos do boteco. Com  dificuldade, viu o Fiat uno partir. Contrariando os conselhos, o gelo que lhe traziam e os demais cuidados, entrou no carro e seguiu para casa. Mirou-se no retrovisor e viu o rosto vermelhaço, o olho roxo. A vergonha doía mais que os ferimentos. Ele que sempre esculachara na calada da noite, sem testemunhas, foi porrado e humilhado na frente de muitos. Adentrou o pequeno apê, herança da namorada adoradora dos gatos. Chorou e rememorou o cãozinho xodó, melhor amigo, salvador de sua infância. Não havia mais ninguém para lamber suas feridas.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

MAGISTRÍCIO


Andava num misto de estresse e desânimo. Aquele cotidiano massificante exigia-lhe vigor, atenção... Seria “estresse” a melhor palavra? Não sabia. Pensou nos colegas de profissão de cem anos passados. Como eles chamariam isso, afinal? Com certeza não usavam a palavra “estresse” porque era algo que ainda não existia. Havia muitos recursos que lhes impediam o aborrecimento. Entretanto, pensar em tais resoluções agora é um absurdo, daria processo e até prisão. Era difícil ser professor.
Entrou em sala. A algazarra de sempre. Daniel Dumont estava em pé sobre a mesa dançando e cantando “é sirizada é sussessagem comigo fazendo / oi oi oi”. Meia dúzia de meninas, Marluce, Vera Dias, Fernanda, Bianca e umas irmãs gêmeas de sobrenome russo batiam palmas. O restante da classe também tocava o zaralho, cada qual a seu modo.
“Bom dia, gente! Vamos sentando, para que possamos dar início à nossa aula.”
Sentavam-se, mas o alarido continuava. Orlando, um bagunceiro contumaz, que tinha notas péssimas na disciplina, berrou:
“Posso ir no banheiro, professor?”
“Não, você poderia ter ido durante o intervalo. Agora, só no próximo tempo.”
“Ihhh... Qual é, professor? Deixa aí, tô apertadão?”
“Não!”
Orlando se afastou encarando o professor de fisionomia contraída e assim passaria toda a aula.
Teve de relutar muito até conseguir fazer os alunos mais exaltados se acalmarem. Alunos que se tornavam cantores, piadistas, transeuntes, inimigos... tudo, menos estudantes. Fazendo a chamada teve de dar ainda dois ou três gritos. Levantou-se, pegou um toco de giz e começou a escrever no quadro negro. O falatório recomeçou. De costas para a turma o professor sentia-se indefeso. Tinha medo de ser alvejado por alguma bolinha de papel ou dardo venenoso. Afinal, os terrorismos eram muitos: goma de mascar na cadeira, caricaturas ofensivas no quadro, frases difamatórias nas paredes dos banheiros. Tudo isso só porque escolhera essa profissão de professor de português e insistia em ensinar. Os adolescentes já não estavam mais interessados a aprender nada daquilo que a escola apregoava. O mundo das gordas mesadas não necessitava daqueles conhecimentos; aqueles jovens reinavam em um lugar repleto de facilidades e conforto. Definitivamente, não sabiam a utilidade de estar dentro de uma sala de aula, pois diante das baladas, namorinhos, bebedeiras e bate-papos virtuais, a escola nada mais era do que mera imposição dos pais, uma condição para continuarem levando suas vidinhas fáceis e irresponsáveis.


Depois de colocar os tópicos no quadro negro, professor Azeredo ou “Azedo” – como os alunos gostavam de chamá-lo – iria dar início a uma rápida abordagem teórica. Boa parte das meninas copiava freneticamente, dando um colorido todo especial às folhas de fichário floridas com suas canetinhas perfumadas. Algumas conversavam com a colega mais próxima. Já os meninos, exceto os CDFs da turma, faziam de tudo menos silenciar e copiar o que estava no quadro. Jorge Godim fazia de sua esferográfica uma zarabatana, Daniel Brito jogava bolinhas de papel no ventilador, Cláudio Vidal batucava na carteira com uma empolgação tamanha que o fazia se esquecer de que estava em uma sala de aula.
“Cláudio, pare já com isso! Você não está em nenhum ensaio de escola de samba!”
“Qualé, ‘fessor?! Só falta um puxador porque passista já tem, ó... Mas essa daí só conseguiu sair no bloco do Enverga mas num Quebra, lá de Ramos, eh, eh!”
O garoto apontava para Lorena Quiroga, a mais saidinha da turma. A garota não pareceu se ressentir, sorriu e depois mostrou a língua para o “percursionista”


“Silêncio, gente! Silêncio! A aula de hoje é importante, nós vamos estudar os sinais de pontuação. Vamos descobrir para que servem e como usá-los ...”
A baderna continuava, Lorena agora fazia um coque com o auxílio do lápis. Cláudio mexia em alguma coisa embaixo da carteira. Havia cinco ou seis de alunos que copiavam o conteúdo do quadro. Mas, para o professor Azeredo, eles faziam aquilo por pena. Pena de um homem que estudou durante anos a fio, que participou de seminários sonolentos e tenebrosos, que leu de becharas a mattosos, que deu noites de sono em troca de horas de estudo, que tinha todo o cuidado de preparar as aulas, que nunca enrolava... Talvez fosse o talento... ou a falta dele. Ter o conhecimento e saber passá-lo à frente são coisas completamente distintas. Somente nas universidades, os professores antipáticos e sem carisma são tolerados, desde que esnobem e arrotem saberes. Do lado de cá do universo educacional brasileiro, o conhecimento pode ser de almanaque, desde que se tenha paciência e traquejo para lidar com esses humanóides.
“Fessor,  a sua careca eu chamo de calvice ou calvície?” – bradou Vidal, sentado na penúltima carteira da coluna ao lado da janela.
Azeredo levou a mão à cabeça e olhou para chão. Sentiu as gargalhadas como uma avalanche de escárnio e mal-dizer. Sentia-se um palhaço, um bufão maldito.
O professor ficou estático. A classe emudeceu a espera de uma resposta, de uma expulsão de sala, lição de moral ou coisa parecida. Azeredo recordou da época em que seus cabelos começaram a cair. O maior dos dramas de sua juventude perdida. Tentou todos os remédios, preparados, chás, mandingas e simpatias. Nada adiantou. A calvice/calvície comera-lhe os cabelos já aos vinte e um anos de idade.


 “Bem, meu caro aluno, disse o professor, quebrando o bastão de giz e se aproximando da extremidade esquerda do quadro, não se diz calvice, e sim calvície. Deveria saber disso, deveria conhecer a grafia correta dessa palavra. Mas, infelizmente, é exigir demais de sua cabecinha de camarão abduzido que transporta uma única idéia fixa de fumar maconha e encher a cara com essa beberagem chamada Gummy feita com a cachaça mais ordinária que sua mesadinha pode comprar.”
A sala ficou em polvorosa. Formou-se um coral em ihhhh. Cláudio, enrubescido olhava para os colegas como se procurasse algum contra-argumento. Soninha Alves, uma gordinha sardenta, tomou as dores:
“Que isso, professor?! Tá maluco?! Isso é maneira de tratar a gente? Nós vamos reclamar na direção porque o senhor é pago pra ensinar a gente e não pra ficar esculachando!”
“É, eu sou teu patrão! Meu pai paga teu salário!” – gritou Claúdio Vidal, batendo no peito.
Professor Azeredo sorriu:
“Ora, seu moleque insolente! Você está muito enganado! Se você pagasse meu salário, eu não precisaria vir aqui todos os dias, muito menos assumir tantas turmas. O que seu pai faz é contribuir para a receita da escola. E quanto a você dona Sônia, pode ir fazer queixa à diretora. O máximo que pode acontecer é minha demissão. Ganharei algumas milhas de indenização, montarei uma barraca de cachorro-quente em frente à escola e terei imenso prazer em contribuir com a sua dieta insalubre e para sua obesidade mórbida!”
A classe calou assustada. Soninha chorava. Cláudio encarava o professor como se quisesse matá-lo.  Orlando também chorava e soluçava. Debaixo de sua carteira formara-se uma poça. Ele realmente estava apertado.
Depois de ouvir promessas de vingança e mandar o aluno mijão para a secretaria, o professor conseguiu discorrer por quinze minutos sem se interrompido.
“Estão liberados . Podem ir embora.” – disse  o professor, enquanto apagava o quadro.


Os alunos deixaram a sala de aula mais do que depressa. Azeredo pensava em uma explicação razoável para dar à diretora. Deveria também escolher alguma outra atividade profissional já que sua carreira como professor naquela rede de ensino estava com os dias contados. Passada a raiva, reconhecia que tinha perdido o controle. Poderia ter mandado os alunos indisciplinados para a secretaria. Levariam uma advertência ou uma bronca, pelo menos, e voltariam mais calmos. Porém, já havia tomado essa atitude uma dúzia de vezes e as coordenadoras pedagógicas repetiam o mesmo discurso repleto de diminutivos e frases de efeito como “você precisa seduzir o aluno, professooooor”. E os mesmos incidentes voltariam a acontecer.
Juntou suas coisas, preparando-se para sair da sala, quando percebeu que não estava sozinho. César Duarte Ferreira, o melhor aluno da sala, aproximou-se com um livro na mão. Seu rosto coberto pela acne avançada e seu estrabismo acentuavam a feiura. Os óculos fundos de garrafa estavam remendados com fita adesiva.
“Professor.”
“Pois não, César.”
“Eu tenho uma pergunta.”
“Então, pergunte.”
“Gostaria de saber as razões linguísticas, políticas e sociais que causaram transformações na Língua Portuguesa.”
“Só isso?”
“Não. Também gostaria de saber por que não faço sucesso com as garotas.”
“Bem... a primeira pergunta é muito complexa. Não tenho como responder assim de uma vez. Quanto à segunda pergunta, você pode começar a fazer sucesso não fazendo perguntas como a primeira.”
O moleque arregalou os olhos e ajeitou os óculos, “Quê!?”
“Escuta, garoto, - em tom paternal – as garotas repudiam os CDFs , nerds, caxias e afins. Mude esse corte de cabelo, trate das espinhas e passe a interagir mais com os colegas populares que você verá os resultados. Caso contrário, você continuará fazendo alegria de seus pais apresentando um boletim impecável, mas continuará infeliz, menosprezado pelos colegas e ignorado pelas meninas.
César toupeira, como era chamado pelos colegas, deixou a sala perplexo, iria também denunciar o professor à coordenação.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Um bom carro vale mais que teu caráter

O carro é uma prótese peniana motorizada. De dentro do luxuoso utilitário, o dono se sente o mais dotado dos homens e acredita ser o líder da manada. O automóvel adentra o corpo e a consciência de algumas mulheres antes mesmo de o motorista fazê-lo. Para purgar as impurezas de sua personalidade, para maquiar a fealdade do seu caráter, passe na concessionária.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A inveja está nos olhos de quem vê

Olho grande, olho gordo, mau-olhado, olho-de-secar-pimenteira, zói de maracanã... A inveja é cheia de apodos. Os olhos são os portais deste nefasto sentimento que ninguém gosta muito de admitir. Quando muito, amenizam toda carga negativa com a expressão "inveja branca". Se você reconhece a inveja, se você percebe os olhares glutões, pode estar certo de que seu olho não é magro, é igualmente obeso, ávido para sugar todo sucesso e bem-estar alheio.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Elogio é placebo pro ego

Quem desgosta de elogio? Mesmo um sujeito de autoestima vermiforme rastejante se rende em sorrisos ao ouvir um elogio. No entanto, deve-se ter cuidado com tais louvores. Muitos elogios são paraguaios, são estratagemas que escamoteiam segundas intenções. Quem é muito elogioso quer algo em troca, nem que seja uma paga em igual moeda. Confiar nesses aduladores de nossos egos é se deixar barbear por um maneta. E quem depende do elogio para escorar o ego claudicante se porta igual a um crackudo à cata do cristal satânico que o escraviza , convertendo-lhe o amor próprio em fumaça.